sábado, 8 de julho de 2023

"Cor Brasil": as origens

Você sabia que o primeiro trabalho de "Cor Brasil" foi uma revista impressa, produzida por alunos da Escola Ephigênia.

Verdade! Isso aconteceu em 2005.
Os assuntos abordados pela revista versavam sobre as influências culturais do povo negro na sociedade brasileira e baririense.

Com o tempo, o projeto foi se ressignificando até ganhar o viés que tem hoje: discutir todas as desigualdades em todas suas dimensões, na perspectiva individual, social, emocional, política, econômica e, por fim, educacional.
Muito aprendizado e bastante empoderamento!
Gratidão a todos que fizeram parte dessa história e que estão engajados em nossas lutas todos os dias!!!

segunda-feira, 3 de julho de 2023

"Pra não dizer que não falei das flores- Parte II"


Elaborei um registro escrito das atividades desenvolvidas na E.M.E.F Professora Joseane Bianco em 2022. Tal material será muito útil no planejamento das estratégias da próxima edição. 

Vem, bora fazer mais ?!

Cor Brasil: o relato

2022

 

1.      As origens

O projeto “Cor Brasil” originou-se em 2005, logo após a implementação da Lei 10.639/03, que versa sobre o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana e ressalta a importância da cultura negra na formação da sociedade brasileira. Eu e minha parceira de trabalho, professora de História e Geografia, começamos a estudar com mais profundidade as possibilidades de trabalho com o ensino de história e cultura afro-brasileira em uma turma específica que nós tínhamos em comum. Dessas reflexões surgiu a elaboração de uma revista impressa intitulada “Cor Brasil”, cujo nome já era obra dos alunos, que seduzidos pela ideia já estavam engajados.

Era uma turma de 7ªsérie, hoje 8º ano, cujos alunos, em sua maioria, eram afro-brasileiros. Havia alguns jovens com problemas de aprendizagem e vários deles eram considerados indisciplinados e frequentemente envolviam-se em conflitos com professores ou outros alunos.

Elaboramos um projeto no qual as atividades exploravam, sobretudo, a exploração das manifestações culturais que eles vivenciavam e que tinham influência africana. Ficamos muito na superfície dos estudos, hoje sabemos disso. Na época, investigamos personalidades negras da comunidade que já eram engajadas em movimento negro e as trouxemos para conversar com a turma; trouxemos cantor de rap da cidade e incentivamos a leitura de letras de música de hip-hop e exploramos a culinária africana.

Levamos os alunos para conhecerem o Museu Afro-brasileiro no Ibirapuera e imprimimos uma revista, por dois anos, com apoio financeiro da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Fizemos o lançamento da primeira edição da revista em um clube de campo da cidade, o qual muitos de nossos alunos não conheciam. Foi um trabalho extremamente gratificante, com o qual nos inscrevemos no Prêmio Professor Nota Dez. Fomos contatadas pela equipe do prêmio, que nos fez vários questionamentos por telefone, porém não fomos selecionadas. Tal fato, foi muito importante para entendermos que o trabalho estava muito centralizado na questão cultural, deixando de priorizar questões sociais e raciais. Desde então, nos dedicamos a estudar mais e aprimorar as atividades propostas. Por isso, não paramos mais, porém mudamos o formato ao longo dos anos.

Trocamos de escola, de parceiras, de função e o projeto foi se moldando. Recentemente, durante a pandemia, nas aulas on-line, retomei a revista no formato de blog. A ideia foi bem acatada pelos alunos, porém não consegui desenvolver as estratégias que elaboramos, fomos desestimulados pelas aulas remotas, nas quais poucos alunos participavam e não se sentiam motivados a engajar nas propostas.

No retorno, pós-pandemia, em 2021, realizei um trabalho muito bom também com uma professora de História, fizemos um desfile do Orgulho Crespo, estudos sobre uso de expressões que acatam o racismo e iniciamos uma luta antirracista na escola. Isso foi muito importante, pois no ano seguinte, mesmo sem estar na escola, a professora solicitou-me se poderia continuar o trabalho com o mesmo título. Fiquei muito feliz, parece que deixei uma franquia por lá, pois ela engajou-se com a professora de Arte e fizeram um belo trabalho em 2022, assim como fizemos na outra escola onde estou atualmente.

 

2.      Na escola “Joseane Bianco”

            Em 2022, retornando à escola Joseane Bianco, encontrei parceiras que já trabalhavam a aplicação da Lei 10.639 de modo sistemático, culminando as atividades do grupo no Dia da Consciência Negra.

                                    Nos encontros semanais regulares da escola e em reuniões do grupo de professores de Arte, História e Língua Portuguesa, apresentamos nossas propostas ao grupo e iniciamos a elaboração das atividades.

                                    Neste relato, vou ater-me a apresentar as propostas desenvolvidas nas aulas de Língua Portuguesa de modo mais detalhado, enquanto que as atividades das demais disciplinas serão escritas de modo mais sucinto, pelo fato de não ser de meu conhecimento todas as especificidades de cada uma delas. Importante já adiantar, que o tema selecionado para os estudos de 2022 foi “Feminismo negro: um caminho na construção do empoderamento”.

                                    Para começar, é preciso deixar claro que “Cor Brasil 2022” é uma articulação de quatro eixos de trabalho, engajados na proposta de discutir as questões raciais durante o segundo semestre de 2022. Essa constituição do trabalho é fruto das avaliações que elaborei ao longo dos anos em que desenvolvi outros projetos, sobretudo, obtive como referência um projeto de leitura, em que o desenvolvo a partir de eixos, culminando sempre com a mesma meta. Descobri que, de modo bastante subjetivo, esse formato de desenvolver projetos facilita a organização da rotina e a articulação das metodologias e dos subtemas.        

Ao longo deste texto, relato cada um dos eixos, os quais, para serem compreendidos, deve-se lembrar, durante a leitura, que estão todos articulados sob a meta de desenvolver consciência de negritude e branquitude, além de despertar a comunidade para atitudes antirracistas. Sem esquecer, é claro, de que por trás de todas atividades as habilidades de leitura e escrita estão sendo estimuladas e prioritariamente exercitadas.

São esses os eixos em questão:

1.      Orgulho Crespo: exposição de fotografias de alunos, cujos cabelos são crespos ou cacheados.

2.      Concurso de redação: “Desafios da mulher negra no Brasil contemporâneo”.

3.      Podcast: Papo com elas

4.      Dia da Consciência Negra

 

2.1 Orgulho Crespo

                                    O primeiro trabalho prático desenvolvido na escola foi a organização de uma exposição de fotografias de nossos alunos, cujos cabelos são crespos ou cacheados. Para isso, fizemos a proposta a todos alunos da escola, organizamos a lista dos interessados e iniciamos as atividades.

                                    Nessa atividade, contei com o protagonismo de duas ex-alunas minhas, Mayara Santos e Michele Bonatti, que hoje são professoras junto comigo na escola Joseane Bianco. Sendo que uma delas foi minha aluna desde o ensino fundamental até o médio.  

                                    Essas meninas, organizaram um dia denominado “SpaDay”, no qual a professora Mayara Santos comandou uma oficina de finalização de cachos. Antes de ensinar os procedimentos, Mayara fez um bate-papo falando sobre sua experiência com os cabelos crespos e a importância de cultivar o amor-próprio, considerando suas características físicas como algo valoroso. Michele, cujos cabelos também são longos e crespos, acompanhou o movimento, conduzindo, também, a logística do evento da escola.

                                    Nos dias subsequentes à oficina de finalização de cachos, percebemos as alunas vindo de cabelos soltos e inovando nos penteados. Divulgaram em suas redes sociais, fotografias e vídeos do SpaDay, demonstrando engajamento e contentamento com a prática.

                                    Os dias foram passando, e o prometido Ensaio Fotográfico foi agendado e executado. Num sábado, dia do meu aniversário, recebemos o fotógrafo profissional João Paula Facin, também meu ex-aluno, o qual fez uma sessão de fotos magníficas de nossos alunos, de modo voluntário. Vieram os jovens, alguns pais e irmãos, professores e gestão. Tivemos uma tarde especialmente alegre.

                                    Quando as fotos ficaram prontas, ou seja, entregues, digitalmente, por João Paulo, cada aluno selecionou qual de suas fotos seria impressa para expormos no Dia da Consciência Negra. Com o apoio de vários professores, organizamos a exposição no pátio da escola, a qual ficou belíssima.

 

2.2 Concurso de Redação

            A ideia do concurso de redação surgiu pelo fato de que eu sempre participo com meus alunos de concursos literários, tenho convicção que eles estimulam os alunos para a escrita, norteiam o meu trabalho em torno de uma sequência didática que promove desenvolvimento de habilidades de leitura e desperta em muitos alunos o gosto pela escrita por fruição.

            Lancei a proposta para as turmas que lecionava, porém estendi o convite para todos alunos da escola. Como prêmio ofereci coleção de livros para os alunos vencedores por categoria, divididas em 6º e 7º anos e 8º e 9º anos. Escrevi um regulamento para o concurso e disponibilizei o acesso para toda a escola, inclusive nos meios digitais.

            Alunos motivados, iniciei o planejamento das atividades que fizeram parte da sequência didática orientadora da produção do texto. A partir do tema “Desafios da mulher negra no Brasil contemporâneo” listei quais informações eram importantes para os alunos chegarem a essa resposta. Provoquei para que olhassem para a mulher brasileira de hoje a partir da vivência deles, mas também ofereci dados e objetos literários para despertar a inquietação sobre as questões raciais, destacando um recorte temático de gênero.

            Comecei com o despertar da sensibilidade para o tema por meio da literatura. Li em aula alguns contos do livro “Insubmissas lágrimas de mulheres”, de Conceição Evaristo. Trabalhei várias habilidades de leitura, enquanto discutíamos os sentimentos das protagonistas das histórias. O estudo que fiz em aulas de Língua Portuguesa, foram ampliados para novos contos e ofertados, posteriormente, para todos alunos da escola, no Dia da Consciência Negra.

            Como um dos gêneros do concurso era poesia, fizemos a leitura de vários poemas de mulheres negras, os quais foram usados como inspiração para a produção dos textos que vieram na sequência, inclusive textos que já não eram parte do projeto Cor Brasil.

            Para fortalecer os argumentos do texto de opinião, o outro gênero selecionado para o concurso, ofereci a leitura de gráficos contendo dados sobre a questão racial no Brasil, sempre dado ênfase ao recorte de gênero, fazendo jus ao tema do ano de 2022. Os gráficos foram também estudos por professores de matemática, os quais reproduziram alguns deles em cartazes para serem divulgados pela escola.

            Outro material de estudo foi a cartilha “São Paulo Contra o Racismo: Aspectos legais e ações afirmativas”, distribuída pelo Governo do Estado de São Paulo- Secretaria da Justiça e Cidadania. Fizemos a leitura das leis, centrais de atendimento e denúncia, etc. A cartilha foi instrumento de estudo nas oficinas do Dia da Consciência Negra também, em que exploramos o capítulo destinado aos cuidados com o vocabulário racista.

            Quando os alunos já estavam com bastante conteúdo sobre a questão proposta no tema do concurso, começamos a escrita da primeira versão dos textos. Muitos alunos não tinham interesse em participar do concurso, porém todos participaram da atividade escrita como sempre fazem com qualquer atividade de produção textual. Já aqueles que vislumbram o prêmio empenharam-se de modo gracioso demais. Achei justo oferecer mais atividades intelectualizadas para atingir os alunos que gostam de introspecção, uma vez que as atividades esportivas e plásticas já são demasiadamente estimuladas e muitos alunos não se sentem contemplados nelas. Deu certo, vi muitos de meus alunos destacaram-se nas oficinas de escrita.

            Conforme o regulamento, os textos foram entregues à direção, selecionados pela equipe julgadora e os alunos devidamente premiados no Dia da Consciência Negra. Foi muito interessante e iremos repetir anualmente essa proposta.

 

2.3 “Papo com elas”

            Essa experiência foi realmente incrível. Antes mesmo de concluir o primeiro semestre de 2022, pensei em fazer um trabalho que contemplasse uma roda de conversa entre meninas. Pensei essa ser uma forma de desenvolver mais sororidade entre elas, uma vez que presenciamos constante conflitos envolvendo grupos de meninas, que poderiam ser mais simpáticas umas com as outras. Assim, foi fácil articular o tema do Dia da Consciência Negra às atividades do grupo “Papo com elas”.

Convidei as garotas dos sextos anos da manhã, minhas turmas, para participarem de encontros quinzenais a serem realizados no contraturno para conversamos sobre nossas questões femininas no cotidiano. Formamos um grupo de cerca de oito meninas, nos reunimos nove vezes e atraímos professoras e mães aos nossos encontros.

Logo na primeira reunião, surgiu a ideia de criarmos um podcast. Como nos temas do encontro discutíamos questões de gênero, selecionamos a questão do empoderamento feminino para realizarmos nossas entrevistas.

Contando com o apoio da professora de História, Renata de Gaspari, fizemos uma lista de seis mulheres negras de Bariri para nos contarem suas histórias. Seriam seis entrevistas de adultas, mais uma com duas de nossas alunas do grupo “Papo com Elas”, Vitória Xavier e Pietra Tibúrcio. Assim, durante sete dias da Semana da Consciência Negra publicamos diariamente uma entrevista num canal do Youtube.

Para entender melhor, “Papo com elas” corresponde a dois momentos diferentes: a) roda de conversa de meninas, realizada na escola, no contraturno, sob orientação da professora de língua portuguesa; b) entrevistas feitas pelas alunas do grupo, gravadas em vídeo e publicadas no youtube, em que mulheres empoderadas de Bariri contam suas histórias.

“Papo com elas” é exclusivamente um trabalho com linguagem oral, priorizando ora a conversa informal e ora a conversa formal. As reuniões produziram os vínculos desejados no início do trabalho e as entrevistas nos forneceram conteúdo robusto para ampliar as discussões sobre gênero e raça. Isso foi observado durante o semestre, no Dia da Consciência Negra e no momento da avaliação do projeto. Por isso, novas estratégias e temas já estão sendo pensados para a continuidade em 2023.

Como visto, essa atividade contemplava exclusivamente a participação de meninas, fato que era discutido em sala de aula. Eu ainda não havia encontrado um modo de articular um espaço semelhante para os meninos, apesar disso, incluía-os ao máximo nas questões que discutíamos, trazendo os temas informalmente para as aulas. Contudo, compartilhando meus trabalhos em andamento com um amigo educador, Vinicius Belizário, que reside em São Paulo, surgiu a ideia de realizarmos o “Papo com eles”. Para isso, Vinicius se propôs a vir passar um dia em Bariri, realizando bate-papos com todos os meninos da escola, discutindo o tema “Masculinidade Tóxica”. O educador é fundador da empresa Harpia, a qual realiza consultorias em diversidade e inclusão. O evento foi um sucesso, com repercussão imediata em nossos meninos, os quais, além de demonstrarem com frequência atitudes positivas e algum comentário sobre a discussão do “Papo com eles”, realizaram um pequeno seminário, transmitindo para as garotas da sala o que aprenderam durante o bate-papo.

Isso prova o quanto um bom bate-papo, com elas e com eles, pode contribuir para criarmos significados e sentidos para que os alunos entendam a realidade em que estão inseridos, analisem como ela se manifesta no dia a dia, não só escolar, mas em todas esferas, inclusive digital, e realizar as mudanças importantes e necessárias para de fato chegar na equidade.

 

2.4 Dia da Consciência Negra

            O Dia da Consciência Negra é celebrado na escola “Joseane Bianco” desde 2018, portanto, “Cor Brasil” entrou em sintonia com essa data e reforçou as atividades do dia com os trabalhos desenvolvidos nas aulas de Língua Portuguesa.

            Várias reuniões foram feitas durante o segundo semestre de 2022, principalmente, pelos professores de Arte, História e Língua Portuguesa. Nesses encontros discutiram-se o tema a ser explorado no ano, as possíveis ações, a data, os convidados, ou seja, a própria dinâmica do evento. Aos poucos as estratégias foram sendo traçadas e as ações executadas, aguardando a culminância no dia 20 de novembro, o qual foi comemorado em 18 de novembro.

            A adesão de professores com trabalhos a serem apresentados no dia 18/11 foi pequena, as ações ficaram restritas aos professores engajados na organização. A data foi se aproximando e o que teríamos de fato para expor era a exposição de fotos, o mural de estatísticas e leis, estudados durante a escrita do texto do Concurso de Redação e a exposição da Hora do Fuxico, a qual consistia em trabalhos manuais realizados na aula de arte, em que os alunos, professores, família construíram um tapete feito de“fuxico” (retalhos de tecidos costurados de modo a parecer uma flor), além de objetos artísticos inspirados em artista brasileira.

            Diante da demanda de outros trabalhos sendo desenvolvidos na escola e o fim do ano letivo se aproximando decidimos fazer a celebração apenas com essas apresentações. Como eu á havia desenvolvido um trabalho de leitura formativa interessante em minhas aulas, ofereci ao grupo se achavam interessante realizar as mesmas estratégias em todas as aulas da escola no dia 18/11, em forma de oficinas, acontecendo simultaneamente. O grupo acatou e assim fizemos.

            Organizamos uma logística para que nesse dia os alunos participassem das oficinas de leitura, visitassem as exposições e apreciassem as demais ações que foram incluídas na programação, divididas em momentos que não obedeciam, necessariamente, ao horário convencional das aulas.

Primeiramente, em sala de aula, o professor da primeira aula apresentou para os alunos o roteiro das atividades do dia e contextualizou o momento que estávamos celebrando. Na sequência, desenvolvemos a oficina do conto de Conceição Evaristo antes de levarmos os alunos para tomarem um café da manhã especial. Logo após o café, fomos todos para a praça da escola assistir à apresentação da Banda Marcial de Bariri, da qual participam muitos de nossos alunos, que demonstraram toques inspirados na cultura africana.

Enquanto as oficinas de formação eram desenvolvidas, os alunos iam apreciar as exposições, “Orgulho Crespo” e “Hora do Fuxico”. A segunda oficina foi referente ao livro “Pequeno Manual Antirracista”, de Djamila Ribeiro, seguida da última oficina feita do estudo das expressões racistas que não devem ser usadas. Já no fim do período, os alunos foram todos para a quadra participar da premiação do Concurso de Redação.

Todas as atividades foram desenvolvidas tanto no período da manhã quanto da tarde, sob orientação da equipe gestora. Para que todos conhecessem as estratégias elaboradas, organizei uma pasta para cada turma, contendo o material das oficinas, bem como o roteiro de orientação para a organização do evento. Também gravei um vídeo, detalhando as ações passo a passo, a fim de garantir o entendimento da proposta e a possibilidade de desenvolver da melhor maneira possível.

Dias após a realização do Dia da Consciência Negra, formulei questões para avaliar tanto o evento como as outras atividades que desenvolvi durante o ano letivo na escola. Diante dos resultados da avaliação, elaborei uma análise que será útil na elaboração das próximas ações da escola e da minha prática individual.

 

3. Resultados

Para realizar uma avaliação mais precisa do projeto Cor Brasil, elaborei questões sobre as ações desenvolvidas no semestre, as quais disponibilizei em formulário Google e folhas impressas individuais, tanto para alunos como para educadores.

Neste documento, faço uma reflexão das respostas da comunidade escolar, por seguimento e por atividade, a fim de utilizar esses dados na elaboração da versão Cor Brasil 2023.

3.1 Avaliação do Dia da Consciência Negra

3.1.1 Dos alunos

            Na avaliação dos alunos, obtivemos 96 respostas, nas quais pudemos observar as seguintes informações:

            Relativo à pergunta sobre o quanto gostaram das atividades propostas no Dia da Consciência Negra, de modo geral, 80,2 % dos alunos atribuíram a nota máxima, 5; 13,5% atribuíram a nota 4 e 6,3% dos alunos atribuíram nota 3. Conclui-se que os alunos, ao se manifestarem na avaliação, demonstraram ter tido interesse nas propostas desenvolvidas durante o dia, sendo possível observar as diferentes apreciações nas perguntas específicas que seguem abaixo.

            Dentre as oficinas desenvolvidas, a mais apreciada foi a “Oficina das frases racistas que devem ser evitadas”, com 45,8% das respostas; seguida da “Oficina com o livro Pequeno Manual Antirracista”, com 43,% dos votos e em terceiro lugar a “Oficina com conto do livro Insubmissas lágrimas”, com 10,4% dos votos. Os números revelam que a oficina literária, livro Insubmissas lágrimas, precisa ser conduzida por professor específico de Língua Portuguesa para que tenha resultados mais significativos.

            Sobre a exposição de fotografias, observou-se que 69,8% dos alunos atribuíram a nota máxima, 5; 18,8% atribuíram a nota 4; 7,3% dos alunos atribuíram nota 3 e 3,1% atribuíram nota 2.

A pergunta sobre a exposição de fotos teve um desdobramento, no qual os alunos foram consultados sobre a justificativa de sua resposta. Dentre as respostas obtidas, destacam-se alguns comentários, que merecem ser reproduzidos neste tópico; lembrando que as respostas dos alunos, tal como escreveram, constam num anexo aos registros do projeto.

Muitos alunos disseram que a exposição estava “linda”, atribuindo um critério estético à pergunta, porém, alguns salientaram que deveriam ter somente fotografias de pessoas negras. Ainda no campo da estética, alguns destacaram a qualidade das fotos. Alguém respondeu que achou interessante pelo fato de a atividade ser inédita, ao que outros complementam dizendo que a exposição chamou muito a atenção do público. Destacaram também a questão da representatividade, escrevendo o quanto foi importante ver meninas e meninos de nossa escola nas fotos; por fim, salientaram a importância da atividade na autoimagem das pessoas, deixando-as à vontade em sua comunidade.

Ao serem perguntados sobre os murais “Desigualdade social” e “Leis”, as respostas dos alunos mostraram que 65,6% dos alunos atribuíram a nota máxima, 5;  16,7% atribuíram a nota 4; 12,5% dos alunos atribuíram nota 3; 2,1% atribuíram nota 2 e 3,1% atribuíram nota 1. Tal resultado pode ser interpretado que é preciso investir mais na contextualização dos dados dos murais, para que os alunos os compreendam.

Já caminhando para a conclusão da avaliação, foi feita a pergunta sobre as atividades do semestre, envolvendo os estudos feitos sobre a história e cultura afro-brasileira: “Você acha que alguma atividade, tanto do dia 18 quanto das realizadas durante o semestre, fez você mudar algum pensamento? ”.

Para essa pergunta, a maioria das respostas orbitou em afirmar positivamente que essas atividades só contribuíram para desenvolver em suas atitudes o comportamento antirracistas. Apesar de se expressarem com outras palavras, muitos alunos disseram que suas ideias não sofreram muita alteração, pois já não eram racistas.

Importante destacar nessa pergunta a resposta de vários alunos que disseram que as atividades desenvolveram: o despertar para outros trabalhos desse tipo; mais positividade; o orgulho pela cor da pele e pelo tipo de cabelo; o conhecimento de que as mulheres negras têm uma condição mais desfavorável em relação a outros grupos sociais; o conhecimento das expressões racistas e como não as usar; a consciência de que existe um padrão e beleza determinado por grupos de interesse.

Para concluir este tópico, encerro com a resposta de um aluno: “Não, eu já tinha o pensamento que o racismo não é nada legal, e pode dar até cadeia. Já passei por um momento como esse e não tinha ninguém pra me informar sobre o assunto, me senti muito triste e chateada em pensar que existe pessoas tão cruéis nesse mundo a ponto de tirar sarro de algo tão importante que é a nossa cor, raça e gênero. ”

Ao serem consultados se gostariam de saber mais sobre racismo e sobre que outros subtemas eles gostariam de estudar, 50 alunos responderam que sim, gostariam de saber mais sobre o racismo, e muitos deles delimitaram sobre qual ponto exatamente gostariam de aprender mais. Tais questionamentos são os seguintes:

·         Por que os negros são importantes?

·         O que explica o preconceito racial?

·         Os direitos das pessoas negras.

·         As leis antirracistas.

·         Por que existe racismo no Brasil?

·         Violência e racismo estrutural.

·         Por que o racismo tem que acontecer e por que sempre com negros e negras?

·         Detalhes e informações de como se defender do racismo.

·         Conhecer mais frases racistas para não ofender as pessoas no dia a dia.

·         Como que os negros nos dias de hoje conseguiram chegar a esse ponto de que não são mais escravizados?

·         Como se referir aos negros sem que eles se incomodem?

·         O racismo em outros países.

·         O racismo no mercado de trabalho.

·         Por que existem pessoas que não se sentem iguais, ou seja, se sentem superiores?

·         Como sentem-se as pessoas ao sofrerem o racismo

·         É possível acabar com o racismo no futuro?

·         Como o racismo pode ter acontecido?

·         Saber mais sobre o povo negro.

·         Existe o fato das comunidades antirracistas não receberem conhecimento de seu trabalho desde antiguidade?

      Para encerrar a avaliação, foi destinado um espaço para os alunos deixarem um recado aos seus professores, no qual eles teceram elogios e agradecimentos, mostrando-se confortáveis tanto em fazer parte do projeto quanto em realizar a avaliação.        

3.1.2 Dos professores

            Na avaliação dos professores foi possível observar uma impressão positiva sobre o evento “Dia da Consciência Negra”, destacando a importância das atividades em promover a reflexão da realidade de nossos alunos.

            Demostraram considerar relevante e propício o conteúdo abordado durante o semestre e exposto no Dia da Consciência Negra, destacando o quanto os alunos ficaram surpresos com os indicadores de diferença salarial no recorte de gênero e raça.

            Quanto à metodologia, sugeriram que para as atividades de celebração do Dia da Consciência Negra de 2023 sejam elaboradas atividades dinâmicas além das reflexivas, salientando também que o tempo para desenvolver as oficinas pode ser maior, a fim de explorar com mais intensidade.

            De modo geral, demonstraram apreciar a organização da exposição dos trabalhos, contudo não indicaram sugestão de temática para o ano de 2023. Por isso, penso que a avaliação dos alunos será fundamental para subsidiar essa escolha.

3.2 Avaliação da minha prática docente

            Ao concluir as atividades de Cor Brasil 2022, sinto-me satisfeita com os resultados. Nos últimos dias letivos, sentei-me na sala de estudos e fiz uma verificação das atividades que tinha em mente em agosto de 2022 e quais delas foram realizadas, canceladas e/ou reformuladas. Isso me mostrou que muitos objetivos foram atingidos, sobretudos aqueles referentes à fomentação da discussão de questões de desigualdade de gênero e raça na escola.

            Analisar as respostas dos formulários de avaliação, os relatos escritos, os depoimentos em vídeos e áudios de alunos e familiares, pensei em como foi impactante desenvolver essa proposta de trabalho em minha escola. Realizar esse projeto estreitou meus laços com os alunos, fortaleceu nossos vínculos e consegui mantê-los engajados e motivados não somente nas temáticas discutidas, como no interesse em aprender e estar na escola para construir e desconstruir a realidade, quando assim for necessário.

            Em relação à aprendizagem dos estudantes sobre conceitos e usos da língua portuguesa, pude observar melhora no discurso escrito e oral também, o que muito me alegra, pois as possibilidades de comunicação que foram criadas nas ações que desenvolvemos privilegiou interações reais, com as quais meus alunos aprenderam muito.  Quero destacar também, que essa proposta de trabalho não deixou ninguém para trás, ao contrário, os alunos com deficiência e com dificuldade de aprendizagem passaram a receber um olhar mais social de seus colegas, penso que talvez despertado pela competência da empatia, a qual foi amplamente debatida no contexto de nossas discussões.

            Outro aspecto muito valioso, diz respeito ao aspecto raça e gênero dos estudantes. Tanto os meninos, como os estudantes não negros puderam posicionar-se em seu lugar de fala e ainda ter a possibilidade de fazer a leitura do discurso de seus colegas a partir do lugar de fala deles. Tal fato, indicou-me a necessidade de explorar o conceito de branquitude na edição seguinte de “Cor Brasil”.

            Para finalizar, destaco o engajamento dos colegas professores na multiplicação das atividades que desenvolvi em minhas turmas para toda a escola. Disponibilizei os estudos que realizei com minhas turmas no segundo semestre de 2023, organizamos uma dinâmica de oficinas realizadas, concomitantemente, na exposição de trabalhos do “Dia da Consciência Negra”. Transformamos esse dia numa atividade de formação, cujo tema foi “Feminismo negro: um caminho na construção do empoderamento”.



"Pra não dizer que não falei das flores!" Geraldo Vandré

Sim, chegou a hora da colheita e pensei ser interessante publicar aqui as flores que continuam nascendo de "Cor Brasil".
Na semana seguinte à Exposição "Mulheres Fabulosas", propus um formulário de avaliação que me ajudará muito a traçar metas para a versão 2024 e os próximos projetos também.
Confiram parte desses resultados que já nos inspiram a cultivar novos jardins. 








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