Elaborei um registro escrito das atividades desenvolvidas na E.M.E.F Professora Joseane Bianco em 2022. Tal material será muito útil no planejamento das estratégias da próxima edição.
Vem, bora fazer mais ?!
Cor Brasil: o relato
2022
1.
As origens
O projeto “Cor Brasil” originou-se em
2005, logo após a implementação da Lei 10.639/03, que versa sobre o ensino da
história e cultura afro-brasileira e africana e ressalta a importância da
cultura negra na formação da sociedade brasileira. Eu e minha parceira de trabalho, professora de História e
Geografia, começamos a estudar com mais profundidade as possibilidades de
trabalho com o ensino de história e cultura afro-brasileira em uma turma
específica que nós tínhamos em comum. Dessas reflexões surgiu a elaboração de
uma revista impressa intitulada “Cor Brasil”, cujo nome já era obra dos alunos,
que seduzidos pela ideia já estavam engajados.
Era uma turma de 7ªsérie, hoje 8º
ano, cujos alunos, em sua maioria, eram afro-brasileiros. Havia alguns jovens
com problemas de aprendizagem e vários deles eram considerados indisciplinados
e frequentemente envolviam-se em conflitos com professores ou outros alunos.
Elaboramos um projeto no qual as
atividades exploravam, sobretudo, a exploração das manifestações culturais que
eles vivenciavam e que tinham influência africana. Ficamos muito na superfície
dos estudos, hoje sabemos disso. Na época, investigamos personalidades negras
da comunidade que já eram engajadas em movimento negro e as trouxemos para
conversar com a turma; trouxemos cantor de rap da cidade e incentivamos a
leitura de letras de música de hip-hop e exploramos a culinária africana.
Levamos os alunos para conhecerem o
Museu Afro-brasileiro no Ibirapuera e imprimimos uma revista, por dois anos,
com apoio financeiro da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Fizemos
o lançamento da primeira edição da revista em um clube de campo da cidade, o
qual muitos de nossos alunos não conheciam. Foi um trabalho extremamente gratificante,
com o qual nos inscrevemos no Prêmio Professor Nota Dez. Fomos contatadas pela
equipe do prêmio, que nos fez vários questionamentos por telefone, porém não
fomos selecionadas. Tal fato, foi muito importante para entendermos que o
trabalho estava muito centralizado na questão cultural, deixando de priorizar
questões sociais e raciais. Desde então, nos dedicamos a estudar mais e
aprimorar as atividades propostas. Por isso, não paramos mais, porém mudamos o
formato ao longo dos anos.
Trocamos de escola, de parceiras, de
função e o projeto foi se moldando. Recentemente, durante a pandemia, nas aulas
on-line, retomei a revista no formato de blog. A ideia foi bem acatada pelos
alunos, porém não consegui desenvolver as estratégias que elaboramos, fomos
desestimulados pelas aulas remotas, nas quais poucos alunos participavam e não
se sentiam motivados a engajar nas propostas.
No retorno, pós-pandemia, em 2021,
realizei um trabalho muito bom também com uma professora de História, fizemos
um desfile do Orgulho Crespo, estudos sobre uso de expressões que acatam o
racismo e iniciamos uma luta antirracista na escola. Isso foi muito importante,
pois no ano seguinte, mesmo sem estar na escola, a professora solicitou-me se
poderia continuar o trabalho com o mesmo título. Fiquei muito feliz, parece que
deixei uma franquia por lá, pois ela engajou-se com a professora de Arte e
fizeram um belo trabalho em 2022, assim como fizemos na outra escola onde estou
atualmente.
2. Na escola “Joseane Bianco”
Em 2022,
retornando à escola Joseane Bianco, encontrei parceiras que já trabalhavam a
aplicação da Lei 10.639 de modo sistemático, culminando as atividades do grupo
no Dia da Consciência Negra.
Nos
encontros semanais regulares da escola e em reuniões do grupo de professores de
Arte, História e Língua Portuguesa, apresentamos nossas propostas ao grupo e
iniciamos a elaboração das atividades.
Neste
relato, vou ater-me a apresentar as propostas desenvolvidas nas aulas de Língua
Portuguesa de modo mais detalhado, enquanto que as atividades das demais
disciplinas serão escritas de modo mais sucinto, pelo fato de não ser de meu
conhecimento todas as especificidades de cada uma delas. Importante já
adiantar, que o tema selecionado para os estudos de 2022 foi “Feminismo negro: um caminho na construção
do empoderamento”.
Para
começar, é preciso deixar claro que “Cor Brasil 2022” é uma articulação de
quatro eixos de trabalho, engajados na proposta de discutir as questões raciais
durante o segundo semestre de 2022. Essa constituição do trabalho é fruto das
avaliações que elaborei ao longo dos anos em que desenvolvi outros projetos,
sobretudo, obtive como referência um projeto de leitura, em que o desenvolvo a
partir de eixos, culminando sempre com a mesma meta. Descobri que, de modo
bastante subjetivo, esse formato de desenvolver projetos facilita a organização
da rotina e a articulação das metodologias e dos subtemas.
Ao longo deste texto, relato cada um
dos eixos, os quais, para serem compreendidos, deve-se lembrar, durante a
leitura, que estão todos articulados sob a meta de desenvolver consciência de negritude e branquitude, além de despertar a
comunidade para atitudes antirracistas. Sem esquecer, é claro, de que por
trás de todas atividades as habilidades de leitura e escrita estão sendo
estimuladas e prioritariamente exercitadas.
São esses os eixos em questão:
1. Orgulho Crespo: exposição de
fotografias de alunos, cujos cabelos são crespos ou cacheados.
2. Concurso de redação: “Desafios da
mulher negra no Brasil contemporâneo”.
3. Podcast: Papo com elas
4. Dia da Consciência Negra
2.1 Orgulho Crespo
O
primeiro trabalho prático desenvolvido na escola foi a organização de uma
exposição de fotografias de nossos alunos, cujos cabelos são crespos ou
cacheados. Para isso, fizemos a proposta a todos alunos da escola, organizamos
a lista dos interessados e iniciamos as atividades.
Nessa
atividade, contei com o protagonismo de duas ex-alunas minhas, Mayara Santos e
Michele Bonatti, que hoje são professoras junto comigo na escola Joseane
Bianco. Sendo que uma delas foi minha aluna desde o ensino fundamental até o
médio.
Essas
meninas, organizaram um dia denominado “SpaDay”, no qual a professora Mayara
Santos comandou uma oficina de finalização de cachos. Antes de ensinar os
procedimentos, Mayara fez um bate-papo falando sobre sua experiência com os
cabelos crespos e a importância de cultivar o amor-próprio, considerando suas
características físicas como algo valoroso. Michele, cujos cabelos também são
longos e crespos, acompanhou o movimento, conduzindo, também, a logística do
evento da escola.
Nos
dias subsequentes à oficina de finalização de cachos, percebemos as alunas
vindo de cabelos soltos e inovando nos penteados. Divulgaram em suas redes
sociais, fotografias e vídeos do SpaDay, demonstrando engajamento e
contentamento com a prática.
Os
dias foram passando, e o prometido Ensaio Fotográfico foi agendado e executado.
Num sábado, dia do meu aniversário, recebemos o fotógrafo profissional João
Paula Facin, também meu ex-aluno, o qual fez uma sessão de fotos magníficas de
nossos alunos, de modo voluntário. Vieram os jovens, alguns pais e irmãos,
professores e gestão. Tivemos uma tarde especialmente alegre.
Quando
as fotos ficaram prontas, ou seja, entregues, digitalmente, por João Paulo,
cada aluno selecionou qual de suas fotos seria impressa para expormos no Dia da
Consciência Negra. Com o apoio de vários professores, organizamos a exposição
no pátio da escola, a qual ficou belíssima.
2.2 Concurso de Redação
A ideia do
concurso de redação surgiu pelo fato de que eu sempre participo com meus alunos
de concursos literários, tenho convicção que eles estimulam os alunos para a
escrita, norteiam o meu trabalho em torno de uma sequência didática que promove
desenvolvimento de habilidades de leitura e desperta em muitos alunos o gosto
pela escrita por fruição.
Lancei a
proposta para as turmas que lecionava, porém estendi o convite para todos
alunos da escola. Como prêmio ofereci coleção de livros para os alunos
vencedores por categoria, divididas em 6º e 7º anos e 8º e 9º anos. Escrevi um
regulamento para o concurso e disponibilizei o acesso para toda a escola,
inclusive nos meios digitais.
Alunos
motivados, iniciei o planejamento das atividades que fizeram parte da sequência
didática orientadora da produção do texto. A partir do tema “Desafios da mulher
negra no Brasil contemporâneo” listei quais informações eram importantes para
os alunos chegarem a essa resposta. Provoquei para que olhassem para a mulher
brasileira de hoje a partir da vivência deles, mas também ofereci dados e
objetos literários para despertar a inquietação sobre as questões raciais,
destacando um recorte temático de gênero.
Comecei com
o despertar da sensibilidade para o tema por meio da literatura. Li em aula
alguns contos do livro “Insubmissas lágrimas de mulheres”, de Conceição
Evaristo. Trabalhei várias habilidades de leitura, enquanto discutíamos os
sentimentos das protagonistas das histórias. O estudo que fiz em aulas de
Língua Portuguesa, foram ampliados para novos contos e ofertados,
posteriormente, para todos alunos da escola, no Dia da Consciência Negra.
Como um dos
gêneros do concurso era poesia, fizemos a leitura de vários poemas de mulheres
negras, os quais foram usados como inspiração para a produção dos textos que
vieram na sequência, inclusive textos que já não eram parte do projeto Cor
Brasil.
Para
fortalecer os argumentos do texto de opinião, o outro gênero selecionado para o
concurso, ofereci a leitura de gráficos contendo dados sobre a questão racial
no Brasil, sempre dado ênfase ao recorte de gênero, fazendo jus ao tema do ano
de 2022. Os gráficos foram também estudos por professores de matemática, os
quais reproduziram alguns deles em cartazes para serem divulgados pela escola.
Outro
material de estudo foi a cartilha “São Paulo Contra o Racismo: Aspectos legais
e ações afirmativas”, distribuída pelo Governo do Estado de São Paulo-
Secretaria da Justiça e Cidadania. Fizemos a leitura das leis, centrais de
atendimento e denúncia, etc. A cartilha foi instrumento de estudo nas oficinas
do Dia da Consciência Negra também, em que exploramos o capítulo destinado aos
cuidados com o vocabulário racista.
Quando os
alunos já estavam com bastante conteúdo sobre a questão proposta no tema do
concurso, começamos a escrita da primeira versão dos textos. Muitos alunos não
tinham interesse em participar do concurso, porém todos participaram da
atividade escrita como sempre fazem com qualquer atividade de produção textual.
Já aqueles que vislumbram o prêmio empenharam-se de modo gracioso demais. Achei
justo oferecer mais atividades intelectualizadas para atingir os alunos que
gostam de introspecção, uma vez que as atividades esportivas e plásticas já são
demasiadamente estimuladas e muitos alunos não se sentem contemplados nelas.
Deu certo, vi muitos de meus alunos destacaram-se nas oficinas de escrita.
Conforme o
regulamento, os textos foram entregues à direção, selecionados pela equipe
julgadora e os alunos devidamente premiados no Dia da Consciência Negra. Foi
muito interessante e iremos repetir anualmente essa proposta.
2.3 “Papo com elas”
Essa
experiência foi realmente incrível. Antes mesmo de concluir o primeiro semestre
de 2022, pensei em fazer um trabalho que contemplasse uma roda de conversa
entre meninas. Pensei essa ser uma forma de desenvolver mais sororidade entre
elas, uma vez que presenciamos constante conflitos envolvendo grupos de
meninas, que poderiam ser mais simpáticas umas com as outras. Assim, foi fácil
articular o tema do Dia da Consciência Negra às atividades do grupo “Papo com
elas”.
Convidei as garotas dos sextos anos da
manhã, minhas turmas, para participarem de encontros quinzenais a serem
realizados no contraturno para conversamos sobre nossas questões femininas no
cotidiano. Formamos um grupo de cerca de oito meninas, nos reunimos nove vezes
e atraímos professoras e mães aos nossos encontros.
Logo na primeira reunião, surgiu a
ideia de criarmos um podcast. Como nos temas do encontro discutíamos questões
de gênero, selecionamos a questão do empoderamento feminino para realizarmos
nossas entrevistas.
Contando com o apoio da professora de
História, Renata de Gaspari, fizemos uma lista de seis mulheres negras de
Bariri para nos contarem suas histórias. Seriam seis entrevistas de adultas,
mais uma com duas de nossas alunas do grupo “Papo com Elas”, Vitória Xavier e
Pietra Tibúrcio. Assim, durante sete dias da Semana da Consciência Negra
publicamos diariamente uma entrevista num canal do Youtube.
Para entender melhor, “Papo com elas”
corresponde a dois momentos diferentes: a) roda de conversa de meninas,
realizada na escola, no contraturno, sob orientação da professora de língua
portuguesa; b) entrevistas feitas pelas alunas do grupo, gravadas em vídeo e
publicadas no youtube, em que mulheres empoderadas de Bariri contam suas
histórias.
“Papo com elas” é exclusivamente um
trabalho com linguagem oral, priorizando ora a conversa informal e ora a
conversa formal. As reuniões produziram os vínculos desejados no início do
trabalho e as entrevistas nos forneceram conteúdo robusto para ampliar as
discussões sobre gênero e raça. Isso foi observado durante o semestre, no Dia
da Consciência Negra e no momento da avaliação do projeto. Por isso, novas
estratégias e temas já estão sendo pensados para a continuidade em 2023.
Como visto, essa atividade
contemplava exclusivamente a participação de meninas, fato que era discutido em
sala de aula. Eu ainda não havia encontrado um modo de articular um espaço
semelhante para os meninos, apesar disso, incluía-os ao máximo nas questões que
discutíamos, trazendo os temas informalmente para as aulas. Contudo,
compartilhando meus trabalhos em andamento com um amigo educador, Vinicius
Belizário, que reside em São Paulo, surgiu a ideia de realizarmos o “Papo com
eles”. Para isso, Vinicius se propôs a vir passar um dia em Bariri, realizando
bate-papos com todos os meninos da escola, discutindo o tema “Masculinidade
Tóxica”. O educador é fundador da empresa Harpia, a qual realiza consultorias
em diversidade e inclusão. O evento foi um sucesso, com repercussão imediata em
nossos meninos, os quais, além de demonstrarem com frequência atitudes
positivas e algum comentário sobre a discussão do “Papo com eles”, realizaram
um pequeno seminário, transmitindo para as garotas da sala o que aprenderam
durante o bate-papo.
Isso prova o quanto um bom bate-papo,
com elas e com eles, pode contribuir para criarmos significados e sentidos para
que os alunos entendam a realidade em que estão inseridos, analisem como ela se
manifesta no dia a dia, não só escolar, mas em todas esferas, inclusive
digital, e realizar as mudanças importantes e necessárias para de fato chegar
na equidade.
2.4 Dia da Consciência
Negra
O Dia da Consciência Negra é
celebrado na escola “Joseane Bianco” desde 2018, portanto, “Cor Brasil” entrou
em sintonia com essa data e reforçou as atividades do dia com os trabalhos
desenvolvidos nas aulas de Língua Portuguesa.
Várias
reuniões foram feitas durante o segundo semestre de 2022, principalmente, pelos
professores de Arte, História e Língua Portuguesa. Nesses encontros
discutiram-se o tema a ser explorado no ano, as possíveis ações, a data, os
convidados, ou seja, a própria dinâmica do evento. Aos poucos as estratégias
foram sendo traçadas e as ações executadas, aguardando a culminância no dia 20
de novembro, o qual foi comemorado em 18 de novembro.
A adesão de
professores com trabalhos a serem apresentados no dia 18/11 foi pequena, as
ações ficaram restritas aos professores engajados na organização. A data foi se
aproximando e o que teríamos de fato para expor era a exposição de fotos, o
mural de estatísticas e leis, estudados durante a escrita do texto do Concurso
de Redação e a exposição da Hora do Fuxico, a qual consistia em trabalhos
manuais realizados na aula de arte, em que os alunos, professores, família
construíram um tapete feito de“fuxico” (retalhos de tecidos costurados de modo
a parecer uma flor), além de objetos artísticos inspirados em artista
brasileira.
Diante da
demanda de outros trabalhos sendo desenvolvidos na escola e o fim do ano letivo
se aproximando decidimos fazer a celebração apenas com essas apresentações.
Como eu á havia desenvolvido um trabalho de leitura formativa interessante em
minhas aulas, ofereci ao grupo se achavam interessante realizar as mesmas
estratégias em todas as aulas da escola no dia 18/11, em forma de oficinas, acontecendo
simultaneamente. O grupo acatou e assim fizemos.
Organizamos
uma logística para que nesse dia os alunos participassem das oficinas de
leitura, visitassem as exposições e apreciassem as demais ações que foram
incluídas na programação, divididas em momentos que não obedeciam,
necessariamente, ao horário convencional das aulas.
Primeiramente, em sala de aula, o
professor da primeira aula apresentou para os alunos o roteiro das atividades
do dia e contextualizou o momento que estávamos celebrando. Na sequência,
desenvolvemos a oficina do conto de Conceição Evaristo antes de levarmos os
alunos para tomarem um café da manhã especial. Logo após o café, fomos todos
para a praça da escola assistir à apresentação da Banda Marcial de Bariri, da
qual participam muitos de nossos alunos, que demonstraram toques inspirados na
cultura africana.
Enquanto as oficinas de formação eram
desenvolvidas, os alunos iam apreciar as exposições, “Orgulho Crespo” e “Hora
do Fuxico”. A segunda oficina foi referente ao livro “Pequeno Manual
Antirracista”, de Djamila Ribeiro, seguida da última oficina feita do estudo
das expressões racistas que não devem ser usadas. Já no fim do período, os
alunos foram todos para a quadra participar da premiação do Concurso de
Redação.
Todas as atividades foram
desenvolvidas tanto no período da manhã quanto da tarde, sob orientação da
equipe gestora. Para que todos conhecessem as estratégias elaboradas, organizei
uma pasta para cada turma, contendo o material das oficinas, bem como o roteiro
de orientação para a organização do evento. Também gravei um vídeo, detalhando
as ações passo a passo, a fim de garantir o entendimento da proposta e a
possibilidade de desenvolver da melhor maneira possível.
Dias após a realização do Dia da
Consciência Negra, formulei questões para avaliar tanto o evento como as outras
atividades que desenvolvi durante o ano letivo na escola. Diante dos resultados
da avaliação, elaborei uma análise que será útil na elaboração das próximas
ações da escola e da minha prática individual.
3. Resultados
Para realizar uma avaliação mais
precisa do projeto Cor Brasil, elaborei questões sobre as ações desenvolvidas
no semestre, as quais disponibilizei em formulário Google e folhas impressas
individuais, tanto para alunos como para educadores.
Neste documento, faço uma reflexão
das respostas da comunidade escolar, por seguimento e por atividade, a fim de
utilizar esses dados na elaboração da versão Cor Brasil 2023.
3.1 Avaliação do Dia da
Consciência Negra
3.1.1 Dos alunos
Na avaliação
dos alunos, obtivemos 96 respostas, nas quais pudemos observar as seguintes
informações:
Relativo à
pergunta sobre o quanto gostaram das atividades propostas no Dia da Consciência Negra, de modo geral, 80,2 % dos
alunos atribuíram a nota máxima, 5; 13,5% atribuíram a nota 4 e 6,3% dos alunos
atribuíram nota 3. Conclui-se que os alunos, ao se manifestarem na avaliação,
demonstraram ter tido interesse nas propostas desenvolvidas durante o dia, sendo
possível observar as diferentes apreciações nas perguntas específicas que
seguem abaixo.
Dentre as oficinas desenvolvidas, a mais
apreciada foi a “Oficina das frases racistas que devem ser evitadas”, com 45,8%
das respostas; seguida da “Oficina com o livro Pequeno Manual Antirracista”, com 43,% dos votos e em terceiro
lugar a “Oficina com conto do livro Insubmissas
lágrimas”, com 10,4% dos votos. Os números revelam que a oficina literária,
livro Insubmissas lágrimas, precisa ser conduzida por professor específico de
Língua Portuguesa para que tenha resultados mais significativos.
Sobre a exposição de fotografias, observou-se
que 69,8% dos alunos atribuíram a nota máxima, 5; 18,8% atribuíram a nota 4;
7,3% dos alunos atribuíram nota 3 e 3,1% atribuíram nota 2.
A pergunta sobre a exposição de fotos
teve um desdobramento, no qual os alunos foram consultados sobre a
justificativa de sua resposta. Dentre as respostas obtidas, destacam-se alguns
comentários, que merecem ser reproduzidos neste tópico; lembrando que as
respostas dos alunos, tal como escreveram, constam num anexo aos registros do
projeto.
Muitos alunos disseram que a
exposição estava “linda”, atribuindo um critério estético à pergunta, porém,
alguns salientaram que deveriam ter somente fotografias de pessoas negras.
Ainda no campo da estética, alguns destacaram a qualidade das fotos. Alguém
respondeu que achou interessante pelo fato de a atividade ser inédita, ao que
outros complementam dizendo que a exposição chamou muito a atenção do público. Destacaram
também a questão da representatividade, escrevendo o quanto foi importante ver
meninas e meninos de nossa escola nas fotos; por fim, salientaram a importância
da atividade na autoimagem das pessoas, deixando-as à vontade em sua comunidade.
Ao serem perguntados sobre os murais “Desigualdade social” e “Leis”,
as respostas dos alunos mostraram que 65,6% dos alunos atribuíram a nota
máxima, 5; 16,7% atribuíram a nota 4;
12,5% dos alunos atribuíram nota 3; 2,1% atribuíram nota 2 e 3,1% atribuíram
nota 1. Tal resultado pode ser interpretado que é preciso investir mais na
contextualização dos dados dos murais, para que os alunos os compreendam.
Já caminhando para a conclusão da
avaliação, foi feita a pergunta sobre as atividades do semestre, envolvendo os
estudos feitos sobre a história e cultura afro-brasileira: “Você acha que alguma atividade, tanto do dia
18 quanto das realizadas durante o semestre, fez você mudar algum pensamento?
”.
Para essa pergunta, a maioria das respostas
orbitou em afirmar positivamente que essas atividades só contribuíram para
desenvolver em suas atitudes o comportamento antirracistas. Apesar de se
expressarem com outras palavras, muitos alunos disseram que suas ideias não
sofreram muita alteração, pois já não eram racistas.
Importante destacar nessa pergunta a resposta
de vários alunos que disseram que as atividades desenvolveram: o despertar para
outros trabalhos desse tipo; mais positividade; o orgulho pela cor da pele e
pelo tipo de cabelo; o conhecimento de que as mulheres negras têm uma condição
mais desfavorável em relação a outros grupos sociais; o conhecimento das
expressões racistas e como não as usar; a consciência de que existe um padrão e
beleza determinado por grupos de interesse.
Para concluir este tópico, encerro com a
resposta de um aluno: “Não, eu já tinha o
pensamento que o racismo não é nada legal, e pode dar até cadeia. Já passei por
um momento como esse e não tinha ninguém pra me informar sobre o assunto, me
senti muito triste e chateada em pensar que existe pessoas tão cruéis nesse
mundo a ponto de tirar sarro de algo tão importante que é a nossa cor, raça e gênero.
”
Ao serem consultados se gostariam de saber mais sobre racismo e sobre que outros subtemas eles
gostariam de estudar, 50 alunos responderam que sim, gostariam de saber
mais sobre o racismo, e muitos deles delimitaram sobre qual ponto exatamente
gostariam de aprender mais. Tais questionamentos são os seguintes:
·
Por que os negros
são importantes?
·
O que explica o
preconceito racial?
·
Os direitos das
pessoas negras.
·
As leis
antirracistas.
·
Por que existe
racismo no Brasil?
·
Violência e
racismo estrutural.
·
Por que o racismo
tem que acontecer e por que sempre com negros e negras?
·
Detalhes e informações
de como se defender do racismo.
·
Conhecer mais
frases racistas para não ofender as pessoas no dia a dia.
·
Como que os negros
nos dias de hoje conseguiram chegar a esse ponto de que não são mais
escravizados?
·
Como se referir
aos negros sem que eles se incomodem?
·
O racismo em
outros países.
·
O racismo no
mercado de trabalho.
·
Por que existem
pessoas que não se sentem iguais, ou seja, se sentem superiores?
·
Como sentem-se as
pessoas ao sofrerem o racismo
·
É possível acabar
com o racismo no futuro?
·
Como o racismo
pode ter acontecido?
·
Saber mais sobre
o povo negro.
·
Existe o fato das
comunidades antirracistas não receberem conhecimento de seu trabalho desde
antiguidade?
Para
encerrar a avaliação, foi destinado um espaço para os alunos deixarem um recado
aos seus professores, no qual eles teceram elogios e agradecimentos,
mostrando-se confortáveis tanto em fazer parte do projeto quanto em realizar a
avaliação.
3.1.2 Dos professores
Na avaliação
dos professores foi possível observar uma impressão positiva sobre o evento “Dia
da Consciência Negra”, destacando a importância das atividades em promover a
reflexão da realidade de nossos alunos.
Demostraram considerar
relevante e propício o conteúdo abordado durante o semestre e exposto no Dia da
Consciência Negra, destacando o quanto os alunos ficaram surpresos com os
indicadores de diferença salarial no recorte de gênero e raça.
Quanto à
metodologia, sugeriram que para as atividades de celebração do Dia da
Consciência Negra de 2023 sejam elaboradas atividades dinâmicas além das
reflexivas, salientando também que o tempo para desenvolver as oficinas pode
ser maior, a fim de explorar com mais intensidade.
De modo
geral, demonstraram apreciar a organização da exposição dos trabalhos, contudo não
indicaram sugestão de temática para o ano de 2023. Por isso, penso que a
avaliação dos alunos será fundamental para subsidiar essa escolha.
3.2 Avaliação da minha
prática docente
Ao concluir
as atividades de Cor Brasil 2022, sinto-me satisfeita com os resultados. Nos
últimos dias letivos, sentei-me na sala de estudos e fiz uma verificação das
atividades que tinha em mente em agosto de 2022 e quais delas foram realizadas,
canceladas e/ou reformuladas. Isso me mostrou que muitos objetivos foram
atingidos, sobretudos aqueles referentes à fomentação da discussão de questões
de desigualdade de gênero e raça na escola.
Analisar as
respostas dos formulários de avaliação, os relatos escritos, os depoimentos em
vídeos e áudios de alunos e familiares, pensei em como foi impactante
desenvolver essa proposta de trabalho em minha escola. Realizar esse projeto
estreitou meus laços com os alunos, fortaleceu nossos vínculos e consegui
mantê-los engajados e motivados não somente nas temáticas discutidas, como no
interesse em aprender e estar na escola para construir e desconstruir a
realidade, quando assim for necessário.
Em relação à
aprendizagem dos estudantes sobre conceitos e usos da língua portuguesa, pude
observar melhora no discurso escrito e oral também, o que muito me alegra, pois
as possibilidades de comunicação que foram criadas nas ações que desenvolvemos
privilegiou interações reais, com as quais meus alunos aprenderam muito. Quero destacar também, que essa proposta de
trabalho não deixou ninguém para trás, ao contrário, os alunos com deficiência
e com dificuldade de aprendizagem passaram a receber um olhar mais social de
seus colegas, penso que talvez despertado pela competência da empatia, a qual
foi amplamente debatida no contexto de nossas discussões.
Outro aspecto
muito valioso, diz respeito ao aspecto raça e gênero dos estudantes. Tanto os
meninos, como os estudantes não negros puderam posicionar-se em seu lugar de
fala e ainda ter a possibilidade de fazer a leitura do discurso de seus colegas
a partir do lugar de fala deles. Tal fato, indicou-me a necessidade de explorar
o conceito de branquitude na edição seguinte de “Cor Brasil”.
Para
finalizar, destaco o engajamento dos colegas professores na multiplicação das
atividades que desenvolvi em minhas turmas para toda a escola. Disponibilizei os
estudos que realizei com minhas turmas no segundo semestre de 2023, organizamos
uma dinâmica de oficinas realizadas, concomitantemente, na exposição de
trabalhos do “Dia da Consciência Negra”. Transformamos esse dia numa atividade
de formação, cujo tema foi “Feminismo negro: um caminho na construção do
empoderamento”.

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